Exposição virtual reúne 50 registros centenários gravados em placas de vidro do acervo de Vitória

A capital capixaba ganha uma imersão em sua memória urbana a partir do lançamento da mostra virtual “Vitória em Negativos de Vidro”. A exposição, que fica disponível no Portal da Prefeitura de Vitória a partir deste 8 de setembro, apresenta 50 fotografias capturadas nas primeiras décadas do século XX. As imagens fazem parte de uma das coleções mais valiosas do Arquivo Público Municipal e mostram a configuração da cidade antes dos processos de expansão urbana e grandes aterros.

A iniciativa faz parte do calendário comemorativo do aniversário do município e também celebra os 200 anos da fotografia no mundo, marco associado à obra “Vista da Janela em Le Gras”, criada por Joseph Niépce em 1826. O projeto marca a primeira entrega pública do Núcleo de Memória de Vitória, estrutura composta por profissionais do Arquivo Público e da Subsecretaria de Comunicação para difundir o patrimônio histórico local.

Para viabilizar a exibição das imagens centenárias, os fotógrafos Carlos Antolini e Elizabeth Nader, que atuam na comunicação municipal há mais de três décadas, realizaram um delicado trabalho de recuperação tecnológica. O processo começou com o registro fotográfico individual de cada negativo de vidro sobre uma mesa de luz, momento no qual placas trincadas e quebradas foram remontadas peça por peça. Na sequência, foi feito o tratamento digital para destacar detalhes gravados no material.

O acervo exposto traz registros de construções e cenários urbanos já desaparecidos. Entre as paisagens retratadas estão o antigo Teatro Melpômene, destruído na época da abertura da Rua 7 de Setembro; a entrada do antigo orquidário do Parque Moscoso; a Praia Comprida, atual trecho da Enseada do Suá; e a Ilha do Príncipe no período em que ainda era completamente cercada pelas águas do mar.

Também estão registradas obras de infraestrutura, como a implantação da adutora do Reservatório de Duas Bocas, em Cariacica, voltada ao abastecimento da capital, além de casarios desapropriados e cenas cotidianas, como sepultamentos no Cemitério de Santo Antônio e a feira no Mercado da Vila Rubim.

Técnica e preservação dos negativos

Conforme explica o servidor do Arquivo Municipal, Vadilson Malaquias, a tecnologia de negativos de vidro em placa seca (dry plate) surgiu em 1871. Diferente dos procedimentos anteriores, como o daguerreótipo e a placa úmida, que exigiam manipulação química imediata e laboratórios itinerantes, as placas secas vinham industrializadas e prontas para uso, o que popularizou a fotografia da época.

Malaquias ressalta que a conservação desse acervo exige cuidados rigorosos. As placas devem ser dispostas na vertical, apoiadas pela borda mais longa, acondicionadas em envelopes de pH neutro ou alcalino e mantidas em salas com controle estrito de temperatura, luz e umidade. Como as peças possuem emulsão sensível de halogeneto e brometo de prata em gelatina ou colódio, ficam vulneráveis a fungos, descamações e quebras por impactos.

O conjunto completo do arquivo é formado por 117 placas secas divididas em três formatos: 84 peças de 24x18cm, 26 de 12x9cm e 7 no tamanho 9x6cm. De acordo com Ewerton Nicolau, responsável técnico pelo Arquivo Municipal, o processo de digitalização garante maior durabilidade às peças originais e corrige um período histórico de restrição ao acesso da população por conta da fragilidade das placas.

Sobre o Arquivo Público e Núcleo de Memória

O Arquivo Público Municipal foi instituído pela Lei nº 4 de 1909 — a mesma normativa que criou a Prefeitura de Vitória — e obteve regulamentação no ano de 1941. O acervo possui cerca de 3,2 milhões de páginas de documentos datados desde o século XVII, além de plantas, jornais, revistas e um acervo fotográfico de aproximadamente 65 mil fotos originais e 175 mil negativos.

O recém-criado Núcleo de Memória projeta novas ações educativas e culturais para os próximos meses, incluindo a edição de um livro, a elaboração de vídeos, projetos digitais e exposições temáticas itinerantes para escolas da rede municipal e equipamentos públicos.

Fonte: Prefeitura de Vitória

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