Algumas exposições na França pelo olhar de Fernando Augusto
O professor e artista Fernando Augusto esteve em Marseille e em Paris em novembro de 2025 para participar da exposição “30 anos da Galeria Arte” – em Marseille – e, como não poderia deixar de ser, visitou vários museus e exposições em cartaz na capital francesa. O artista sempre que viaja, desenha e escreve suas impressões da viagem. Desta feita, ele produziu textos sobre as várias exposições que visitou . A coluna ARTE+ vai trazer neste mês de janeiro alguns textos que ele produziu sobre essas exposições.
Gerhard Richter na Fundação Louis Vuitton
Dia 28 de novembro, 2025. A viagem de Marseille à Paris foi tranquila. Observei no painel eletrônico que o trem viajava a 3ookm por hora. Cheguei a Paris por volta do meio dia. Às 14h decidi visitar a grande exposição retrospectiva do artista alemão Gerahd Richter, na Fundação Louis Vuitton, localizada no Bois de Boulogne. Fui de metrô, linha azul até o final: Porte Dauphine. Segui caminhando, me desviando e me localizando pelo caminho. O trajeto era complicado. Tinha que atravessar o bosque (Bois de Boulogne), fazia frio e chovia um pouco. Eu poderia perder e falhar em minha visita. Mas topei viver a experiência até o fim. As vezes é preciso ter consciência de que uma visita a um museu não começa somente quando adentramos suas portas, mas no momento em que saímos de nossa casa para ir até ele.
Então, minha visita à exposição do artista Gerhard Richter já começava na saída do hotel. Pelo caminho, lembrei-me das grandes telas do artista pintadas com rodos de impressão serigráficas, das suas paisagens nebulosas, do retrato da sua filha de costas e seus retratos em preto e branco “desfocados’. Vieram também à minha cabeça, imagens do belíssimo filme que conta sua biografia não autorizada “Nunca deixe de lembrar”, principalmente no final do filme, quando ele fala da concepção de sua pintura em relação à fotografia. Eu pretendia ver principalmente estes retratos em preto e branco extraídos dos jornais da época.
Por volta das 16h cheguei à Fundação Louis Vuitton. O prédio desenhado pelo arquiteto canadense-americano Frank Gehry se destacava como uma escultura de forma fluidas e espelhadas, parecendo um iceberg, ou melhor um navio ancorado em meio à paisagem que já escurecia. Logo na entrada, via-se uma cascata que se destacava, com degraus rasos, levemente inclinados, fazendo a água descer quase em câmara lenta. Era um ‘boas vindas’ em grande estilo.
Gerahrd Richter nasceu em Dresden 1932, cidade histórica alemã que, depois da II Guerra foi anexada à União Soviética. Ele atravessou e testemunhou as fraturas da história alemã do século XX e, percebeu, mesmo sendo um pintor reconhecido no lado oriental, que não pertencia a aquele ambiente e, que ali ele poderia ser facilmente descartado. Antes que isso acontecesse e para poder pintar com liberdade, em 1961, ele corajosamente fugiu para a Alemanha Ocidental e se estabeleceu em Düsseldorf, onde estudou arte e se projetou como artista. Depois mudou-se para Colônia, onde vive atualmente. Seu trabalho, no entanto, nunca foi pacífico, não se acomodou à narrativa biográfica, nem ao conforto da consagração institucional. Essa inquietude marca o seu caminho, feito por rupturas constantes, gerando uma obra diversificada que vai da figuração à abstração, sempre em diálogo com a fotografia.
Gerhard Richter, Gegenuberstellung 2, 1998, óleo sobre tela 112x102cm.
Richter realizou sua primeira exposição individual numa loja de móveis, em Düsseldorf, em 1963. Nesta ocasião ele apresentou, pela primeira vez seu estilo pintura-fotografia: pinturas baseadas em fotos e imagens de jornais, desconcertantemente borradas, desfocadas, em preto e branco, mas ao mesmo tempo com certo teor realista. Elas foram suficiente para colocá-lo no panorama da arte europeia.
Destarte todos as mudanças que sua pintura percorreu, esta maneira de pintar, esteve sempre presente. A construção de imagens baseadas na realidade visível e ao mesmo tempo seu desmanchamento percorre toda sua carreira. Ele assumiu uma distância conceitual dos vanguardistas e conservadores no que se refere a pintura e traçou um caminho onde poderia criar dentro e fora das convenções formais e ideológicas.
Ver sua exposição retrospectiva, foi percorrer uma fatia da nossa história da arte recente. Voltei para o hotel já noite. Novamente me desviei e acertei o caminho. Dentro do metrô Porte Dauphine, destino Nation, as imagens reais se misturavam com as que eu tinha visto. Todos os contornos se tornaram menos definidos. A experiência de ir ao museu, continuava no trem. Melhor no caminho de volta…
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